Ainda me lembro da última vez que desejei feliz ano novo. Foi agora há pouco. Um gesto gentil e banal. Uma grata demonstração de um tipo mecânico de afeto. Geralmente, quem te diz "feliz ano novo" nem faz idéia de como seria pra você um ano feliz. Não faz idéia porque não pergunta, não puxa assunto, não quer saber. Aí simplesmente diz "feliz ano novo". Diz da boca pra fora. Ou então quando rola depois do feliz ano novo um complemento tipo "sucesso!" ou, pior ainda, "tudo de bom!". Aí complica de vez porque desse jeito fica muito vago, quase sem sentido. Além disso, em tempos de competição acirrada no mercado de trabalho, no mercado de idéias e no mercado da esquina, o sucesso de outrem pode ser o seu fracasso. Como desejar tudo de bom a uma pessoa sem cair numa roubada? Ora, num exemplo besta eu posso pensar num coroinha de igreja que, de modo educado e informal, deseja ao padre "um feliz ano novo e tudo de bom!". Mal sabe ele que o padre, com olhar profundo e penetrante, é pedófilo. Ou, então, outro exemplo pode ser o pai desavisado que, na empolgação da virada, deseja ao filho um feliz ano novo, cheio de realizações! Pai desavisado, distante e cruel: o filho só pensa em suicídio. Ou, ainda, o favelado que esbarra com uma viatura policial na rua e, no impulso da loucura, diz aos pm´s "opa, feliz ano novo, sucesso". Pelo menos este vira as costas e dá no pé.
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